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SOBRE O ARTISTA

Breve notícia sobre a vida e obra de Hassis

Hassis torna-se publicamente reconhecido em Florianópolis, pelo menos a partir de 1957. A exposição realizada em parceria com Ernesto Meyer Filho, no Instituto Brasil-Estados Unidos (IBEU), causou alguma repercussão no meio cultural florianopolitano. Um ano depois, formar-se-ia o Grupo de Artistas Plásticos de Florianópolis – o GAPF. Além de Meyer e Hassis, o GAPF contava com mais sete jovens artistas, entre eles Pedro Paulo Vecchietti, Hugo Mund Júnior, Tércio da Gama, Thales Brognoli, Dimas Rosa, Aldo Nunes e Rodrigo de Haro.

O primeiro salão do GAPF é tomado pela crítica de arte e pela historiografia local como a introdução do modernismo nas artes plásticas, a exemplo do que ocorrera há uma década, no campo da literatura, com o Círculo de Arte Moderna, que se tornaria conhecido por Grupo SUL. Uma das características do modernismo em Florianópolis, segundo a dissertação de Luciene Lehmkuhl é a sua relação direta com aquilo que se denomina de positivação da cultura local.

Hiedy de Assis Corrêa – o Hassis – é filho de Orlando de Assis Corrêa, natural de Curitiba, Paraná, e de Laura Rodrigues Corrêa, nascida em Santo Amaro da Imperatriz, Santa Catarina. Hiedy não nascera em Florianópolis em virtude do malfado de seu pai. Sargento do Exército brasileiro, servindo desde 1923 em Florianópolis, Orlando casara-se com Laura em 15 de dezembro de 1924. Residiria na rua Visconde de Ouro Preto (atual rua dos Ilhéus), número 10, até 14 de julho de 1924, quando Orlando é preso e enviado para o Rio de Janeiro. Durante um ano permanecera em diversos quartéis como detento político. Posto em liberdade no dia 3 de julho do ano seguinte, transfere-se para o 3º Regimento Militar do Rio Grande do Sul já tendo Laura novamente ao seu lado.

Em 1º de dezembro de 1925, embarca com destino a Curitiba para onde fora transferido, lá chegando a 8 de dezembro. Em 27 de julho de 1926, no prédio de número 159, na Avenida Dr. Vicente Machado, em Curitiba, nasce Hiedy de Assis Corrêa. Com a nova transferência de Orlando, a família Corrêa muda-se para Santa Catarina via estrada de ferro Paranaguá - Santa Catarina.

Com dois anos e três meses de idade, Hiedy chega a Florianópolis em 18 de outubro de 1928. Após sucessivas mudanças, a família Corrêa finalmente estabelece residência definitiva em Florianópolis. O pequeno Hiedy passa a morar com sua avó materna, na rua Visconde de Ouro Preto, 19. Seus pais moram próximos, na rua General Bittencourt, 55. Em 3 de outubro de 1936, aos dez anos de idade, Hiedy muda-se para a Trindade, junto à família, após seu pai arrendar uma chácara pertencente à família Ramagem. O local era situado nas proximidades do atual Hospital Universitário. A residência fixa no sítio da Trindade parece finalmente contentar ao espírito de Orlando Corrêa, já esgotado pela disciplina militar. Ele viveria seus últimos anos de vida na chácara da Trindade, entre trabalhos agrícolas e de pecuária, onde faleceria em 1949. Em 1950, a família retorna ao Centro da cidade, já com Hassis tendo que sustentar a casa e os irmãos menores, indo residir na rua Anita Garibaldi. Neste período, conheceria aquela que seria sua companheira ao longo de toda a vida, a jovem dois anos mais nova que ele, de nome Nazle Paulo. O casamento seria uma questão de tempo (e dinheiro).

A multiplicidade das fontes acumuladas por Hassis é uma de suas principais marcas. Sua casa, onde todo o rés-do-chão abrigava o ateliê, é uma verdadeira reunião de espaços e tempos. Fragmentos reunidos de forma sistematizada, sempre contendo a referência temporal e autoral. Ao se deparar com o ateliê de Hassis, a primeira impressão é que há ali um universo todo-próprio, um tempo cuidadosamente recolhido e organizado.

Igualmente, o espaço do ateliê – onde provavelmente deveria ser a sala da família Corrêa, mas que se adaptara às necessidades do artista – tinha múltiplas funções para Hassis. Era reserva técnica, acervo permanente de fotografias, negativos, slides, rolos de filmes cinematográficos, livros, jornais, pastas de desenhos, discos, vídeos, etc. Concomitantemente, era seu espaço de criação, onde pintava, esculpia, gravava suas animação, seus grafismos sobre a película ou mesmo filmava a si mesmo pintando . Boa parte de sua existência artística ali se passara.

Este trânsito contínuo entre o que já era acervo e o que ainda seria criado é fundamental em sua obra. Por diversas vezes, percebe-se que Hassis funcionava neste movimento, como quando retornava a suas pastas de arquivo e enumera uma, duas, até mesmo três vezes o mesmo desenho elaborando uma seqüência com os demais. Ou quando retornava aos desenhos da década de 40 e os coloca sobre uma superfície de papel kraft visando sua estabilização e conservação. Na verdade, este movimento é vital para a criação artística de Hassis. Localizar aquilo que lhe interessava no passado, relembrando e retomando enquanto criação artística. Sem seu arquivo, Hassis não seria Hassis.

Nos últimos anos de vida tal processo se acentuara não apenas como fonte para consultas, mas sim como releituras artísticas. Em 1998, pinta novamente o quadro que mais lhe rendera elogios e referências Vento Sul com Chuva, realizado em 1957. Em 1999, retorna aos quadrinhos – referência primeira de sua criação pictórica – realizando a exposição Hassis HQ, no Museu de Arte de Santa Catarina: “(...) a imaginação inquieta do menino de 73 anos voltou a ser habitada pelos heróis da infância – Flash Gordon, Dick Tracy, Tarzan, Zorro, Mandrake, Príncipe Valente”.

De modo geral, observa-se durante toda sua obra um constante retorno aos temas trabalhados nos anos e décadas anteriores. Por várias vezes, encontramos a criação de um trabalho disperso ao longo de décadas. Os primeiros esboços de Uma Procissão são datados de 1959 e foram desenhados em quatro folhas de papel de bloco, com caneta esferográfica azul e guache vermelho. A série foi realizada, contudo, somente sete anos após, já trazendo no conjunto o texto de João Paulo Silveira de Souza. Em 1966, Uma Procissão era uma série de oito acrílicos sobre papel, mas na década de 90, Hassis a retomaria, produzindo um vídeo onde a partir de um jogo de closes dos elementos das pinturas, em conjunção com o áudio captado em uma procissão, tem-se a sensação de se estar efetivamente nela.

A série de colagens intitulada Ontemanhã foi realizada em 1967. Hassis retorna a ela em 1972 para filmar em Super 8 um dos trabalhos mais apurados em cinema que realizara. Já na década de 90, retoma a gravação em Super 8 e a transfere para o formato em vídeo (VHS). Deste modo Ontemanhã é série de colagens em papel, é película cinematográfica, é vídeo e, atualmente, tornou-se livro.

Falar brevemente de Hassis é um enorme desafio. Ele mesmo levara 75 anos para se explicar e mesmo assim não se deu por satisfeito, com toda certeza. O melhor é retornar mais uma vez em sua frase mais conhecida: “Eu, graças a Deus, nunca encontrei o que busco”. Esse era Hassis, um artista inquieto em intensa e profunda busca visual que lhe ocupara toda a existência.


I LEHMKUHL, Luciene. Imagens além do círculo: O Grupo de Artistas Plásticos de Florianópolis e a positivação de uma cultura nos anos 50. Dissertação. Florianópolis: UFSC (Mestrado em História), 1996.

II É realmente difícil de se encontrar um trabalho de Hassis que não esteja datado e assinado. A referência ao espaço – Florianópolis – é omitida pela residência fixa do artista na cidade. Desde os primeiros desenhos, passando pelas fotografias, as poucas anotações escritas, os vídeos, a imensa maioria se encontra perfeitamente datada.

III São inúmeros os Super 8 e, principalmente, os vídeos (VHS) onde Hassis filmara a si mesmo pintando. São fontes inesgotáveis para a compreensão do seu processo criativo.

IV No ano de 1969 Hassis se mudara de um pequeno apartamento da rua Fernando Machado, no Centro de Florianópolis, para a casa do Itaguaçu, situada na porção continental da cidade, mas que também se encontra ao lado da baía sul. A casa fica a menos de 50 metros do mar e lá Hassis residiria até 2001, ano de seu falecimento. Atualmente a casa tornou-se a Fundação Hassis.

V A Notícia, 05/08/1999, p. 8.

VI Talvez tenha sido o acaso, mas o certo é que dando prosseguimento a este constate retorno de Hassis as suas obras e na sua variação de suportes, a primeira publicação após a sua morte, já realizada pela Fundação Hassis, foi do álbum Ontemanhã.